Contar a história...

Relato da história dinamizada no âmbito da exposição o trajar e o ourar. Complemento ao blog "Histórias de uma animação histórica".

18.9.05

Acolhimento e preparação da acção

As crianças chegavam ao museu em grupos e acompanhadas pelo educador ou pelo professor responsável. O acolhimento era realizado já dentro do museu por dois cúmplices de exploração que acompanhavam o grupo durante toda a visita.
A criação do grupo de cúmplices de exploração surgiu com o objectivo de simplificar os conteúdos da exposição e servir de elo de ligação entre o passado e o presente. Para tal, optou-se por manter uma aparência actual e normal, introduzindo progressivamente as crianças no ambiente do século XVIII vivido no resto da exposição que iriam explorar no Museu e patente na caracterização dos restantes animadores. Os objectivos deste primeiro momento passavam ainda por explicar o que é um museu a crianças que nunca o tinham visitado e os cuidados e formas de deslocação durante a exposição, bem como relativamente às peças expostas. Realizava-se ainda um levantamento de ideias e conhecimentos sobre o ouro como algo precioso e presente no nosso quotidiano, destacando-se as jóias e recordando algumas que as crianças conheciam, e em muitos casos usavam, tais como anéis, pulseiras e colares.

O verdadeiro iniciar da acção e a viagem para o século XVIII ocorriam com a entrada do casal de nobres, realizada com grande impacto junto das crianças: a dama surgia em pranto inconsolável, acompanhada pelo seu marido. Depois das apresentações era descrito o problema da perda das jóias e solicitada a ajuda para a criação de novos adornos para a bela Antonieta. Sendo necessário saber que jóias encomendar ao ourives, começava a descoberta do ouro na cultura portuguesa do século XVIII.

Aos cúmplices de exploração competia motivar e ajudar as crianças na sua busca por ajuda para a tarefa em mãos. Nesse processo, tornava-se ainda necessário simplificar conceitos e termos que para as crianças surgiam como complicados ou novos e assegurar o apoio a situações que coubessem ao nosso século, como a utilização da casa-de-banho ou a necessidade de água.

Nobreza e clero

O primeiro passo para resolver o problema implicava uma visita a uma prima nobre, e muito rica, da Dama Antonieta. Com a colaboração do Museu Nacional do Traje, um traje de dama do século XVIII adornado com brincos em ouro branco, laça e trémulo, esperava a indagação dos grupos.


Iniciava-se assim a observação e registo de jóias e a aprendizagem de novo vocabulário. Um retrato da Dama Antonieta (sem jóias) era entregue às crianças para que desenhassem as jóias ali observadas, sendo-lhes pedido que indicassem o local exacto onde a prima usava cada uma das jóias.

Esta exploração, conduzida pelos cúmplices, era interrompida pela interprelação de Frei João de Deus, que procurava obter junto das crianças respostas sobre a sua tarefa, conduzindo-as de seguida para junto do Bispo presente na exposição.


O Frei João de Deus estava encarregue de dar a conhecer às crianças o lado religioso da exposição e as vestes de bispo, nomeadamente, túnica e sapatos bordados a fios de ouro, cruz em ouro e mitra, decorada também com pedras preciosas. A visita ao Bispo permitia ainda explorar os transportes do século XVIII, uma vez que por trás do manequim se encontrava um estufim.


De seguida, João de Deus dava a seguinte pista às crianças: “Para as jóias encontrar, o chapéu de palha vais procurar”. Esta pista era repetida pelas crianças que, depois de se despedirem do Frei, passavam para a terceira sala.

Trajar e ourar populares: a região do Minho

Numa sala com cinco manequins vestidos com trajes típicos da região do Minho – mordoma, ceifeira, noiva e traje de ir à fonte – e adornados com variadas peças cedidas pelas joalharias da cidade de Lamego e alguns particulares, as crianças encontravam duas simpáticas ceifeiras que prontamente aceitavam ajudá-los mostrando-lhes as jóias das suas “amigas”.
De vitrine em vitrine, as crianças eram apresentadas às amigas e analisavam as jóias em busca dos diferentes motivos que estas ostentam (meia lua, uvas, estrela, flor, cruz e borboleta). Uma ficha previamente preparada permitiu registar os motivos presentes e excluir os intrusos.
Procurando manter alguma alternância, e respeitando os ritmos das crianças da faixa etária alvo da animação, num segundo momento, na mesma sala, surgiam as mulheres da fonte que, entrando a cantar, sugeriam às crianças que as acompanhassem, sentando-se numa manta. O seu contributo para a aventura que se desenrolava residia em informações sobre o ourives, o seu oficío e a localização da sua oficina.

Trajar e ourar populares: a região do Douro

Atraídas pela canção que as crianças cantavam, uma lavradeira rica e uma noiva da região do Douro apareciam a oferecer a sua ajuda, conduzindo o grupo à sala onde se encontravam cinco manequins: dois com trajes de festa, uma menina da fonte, uma noiva do Douro e uma lavradeira rica. Em carne e osso surgiam a noiva, a lavradeira rica e uma ceifeira (na foto com a mulher da fonte do Minho). A diferença quer entre os trajes quer entre as jóias das duas regiões era alvo de atenção. Desta feita a tarefa sugerida às crianças era a de desenharem, no retrato da dama, algumas das jóias expostas.

Ainda nesta sala, as crianças reencontravam o casal de nobres que lhes perguntava o que tinham descoberto sobre as jóias. Da análise da vária informação recolhida surgia a questão sobre a diferença entre as jóias da dama nobre e as das ceifeiras e demais mulheres do povo. As crianças identificavam as pedras preciosas e a cor como diferenças mais significativas.
Perante o que as crianças tinham conseguido recolher, inclusivamente a localização da oficina do ourives, os nobres conduziam o grupo até essa última sala para que as jóias decididas pela dama Antonieta pudessem ser executadas.

Oficina do ourives

Vestindo calças pretas, camisas brancas e usando aventais, os ourives recebiam as crianças e o casal de nobres com uma pomposa vénia. As crianças, entusiasmadas com a importante tarefa que lhes tinha sido proposta, descreviam as jóias relativamente à cor, forma e presença de pedras preciosas, desejadas pela D. Antonieta.
O ourives mostrava às crianças o desenho das jóias baseado nos dados fornecidos pelas mesmas e seguidamente era-lhes proposto que se deslocassem até à bancada de trabalho (uma mesa previamente montada), onde fabricariam as suas próprias peças de joalharia (utilizando para tal massas douradas e fios).

Uma vez terminadas as jóias, era-lhes proposta a troca destas por moedas (de chocolate), e surgiam entretanto as jóias feitas pelo Sr. Ourives. Depois da dama experimentar as tão desejadas jóias, as crianças despediam-se e abandonavam o edifício.